Ele tem 17 anos, mas parece ter maturidade de um rapaz de 30 sem perder a essência da idade. E vive o automobilismo com intensidade. Um exemplo: não está nem aí para futebol. “Eu odeio”, resume. É cosmopolita – nasceu na Bahia, é radicado em Brasília, atualmente vive em São Paulo e começa a preparar as malas para morar na Europa, muito provavelmente na Espanha. Bem cedo para quem completou apenas três temporadas no esporte, tirando as de autocross. Sim, ele começou no Velocidade na Terra.
Já tem gente que, à boca pequena, considere Luiz Razia um fenômeno. No primeiro ano no kart, conquistou cinco campeonatos. Depois, correu, concomitantemente, na F-Renault e na F-3 Sul-americana, onde venceu duas provas. Nesta temporada, lidera o certame da parte meridional do continente, com seis triunfos, a uma rodada do fim. E quer seguir pulando etapas: a GP2 é a meta real para 2007.
E as chances são enormes. Tudo por conta dos primeiros e únicos testes realizados na categoria. Há três semanas, em Jerez, Rasia — originalmente, é com S — foi 13º dentre 26 pilotos no primeiro dia, superando o companheiro na sessão, Sérgio Jimenez; no segundo, sob chuva, impressionou com o terceiro melhor tempo. “Não está fechado, mas está bem perto”, contou Luiz.
Razia esteve na redação do Grande Prêmio e falou da importância dos pais, da vida solitária, de ídolos e de colegas. A história vai ter seu nome? A chance é grande, segundo ele, porque parte do princípio de que todos são iguais. “Ninguém tem três bolas”.
Grande Prêmio: Você estreou no automobilismo relativamente tarde, se comparado à molecada atual, que com sete, oito anos, está sentado no kart. O fato de ter iniciado aos 12 anos sua carreira, ainda mais em autocross, mudou em algo?
Luiz Razia — É, eu fiz Velocidade na Terra, dois anos. Acho que foi uma boa escola. E em 2004 eu fiz um ano de kart. E por incrível que pareça, foi um ano, assim, totalmente proveitoso, foram cinco campeonatos que eu ganhei, foram ótimos.
GP: E quais foram esses títulos?
LR: Fui campeão Brasileiro, campeão brasiliense, campeão centro-oeste, vice no sul-brasileiro, no Paulista eu não fui tão bem. Ah, eu ia ganhar na Copa Brasil, mas por 800g não fui campeão.
GP: Porque desclassificaram você por causa do peso...
LR: É. Ganhei a primeira, fiz a pole, cheguei em segundo na segunda bateria e fui desclassificado. Fiquei em quinto.
GP: E você só fez um ano de kart.
LR: Só fiz um ano. E ao mesmo tempo, fiz uns sete, oito treinos de F-3, e no outro ano já fiz F-3 e F-Renault no mesmo final de semana. Na F-3 fiquei em quinto e na F-Renault fui oitavo. Mas foi um ano de duas categorias em que eu não conseguia dar preferência para nenhuma. Foi um ano mais de aprender do que de disputar alguma coisa. Consegui ganhar duas corridas, fiz pole...
GP: E em quanto ajudou fazer dois campeonatos em que você não se concentrava plenamente?
LR: Foi bom, muito bom. Eu aprendi muito porque, em vez de duas largadas no fim de semana, eu fazia quatro, em vez de duas corridas, eu fazia quatro. Era tudo multiplicado por dois. Acho que aprendi muito, amadureci muito nesse ano, foi um intensivo de dois, na verdade.
GP: E você tem as portas abertas para a GP2 no ano que vem. É inevitável: você espera chegar na F-1 em 2008? Você acha que é muito cedo? O que você programou para sua carreira para chegar na F-1?
LR: Na verdade, meu pai sempre pensou extremamente positivo. Ele falou assim, desde que eu andava de kart: "A meta é 2008 para você estar lá". E ele sempre pulou degrau. E eu sempre falando: "Não, pai, vamos degrau por degrau". E ele: "Não, não, vamos pular porque você consegue". E sempre eu consegui acompanhar, mas no limite. Acho que agora na GP2 vai ser a mesma coisa. Talvez eu consiga acompanhar, mas talvez num segundo ano, 2008. E em 2009, de estar dentro da F-1. Mas 2008 já seria possível fazer teste, alguma coisa.
GP: Atualmente você não tem nenhum contato com ninguém da F-1.
LR: Atualmente, não.
GP: Nenhum caçador de talentos ou pessoa ligada à F-1 viu seu teste?
LR: Não, ninguém. Mas por intermédio das equipes de lá e por contatos, acho que consigo algo, sim. Aqui no Brasil a gente tem uma visão que a F-1 é impossível, que é tudo fechado, mas quando você está lá fora, o leque se abre.
GP: Se você fosse um Senna ou um Piquet, o leque seria maior? Seria tudo mais fácil para você?
LR: Não, acho que seria tudo mais difícil. Primeiro porque tem a pressão do nome, então você tem que ter um resultado bom. E segundo, às vezes você não cria sua própria história, tem a história por trás. Então eu não queria estar na pele de nenhum dos dois (Bruno e Nelsinho). É muito encorajador os dois estarem fazendo o que estão fazendo, de muita dedicação, talento. Mas eu não queria estar na pele de nenhum dos dois, quero fazer minha própria história, fazer crescer meu nome, conseguir as coisas com meu esforço, não com um nome que já vem. Mas eles tão fazendo e vingando o nome. O Bruno é um ótimo piloto, está surpreendendo, porque ele tem poucos anos de automobilismo, dois, acho que no máximo três.
GP: Falando em nome, o certo é “Rasia”, com S.
LR: É com S.
GP: E você se resolveu mudar por causa da pronúncia?
LR: É, exatamente, coloquei Z.
GP: Deu certo, creio...
LR: Ficou até legal, né? Fica até bonito de ver. Com dois Z, fica legal, meio agressivo.
GP: Você pode ser campeão da F-3 Sul-Americana, uma categoria que caiu muito nos últimos. Vendo a última década, principalmente os campeões, só Ricardo Zonta e Nelsinho Piquet estão na F-1, e como pilotos de testes da Renault. Há um temor por a Sul-Americana não ser tão válida para o piloto a ponto de, por exemplo, nenhum brasileiro estar como titular na F-1?
LR: Se você vir por um lado, a geração de pilotos brasileiros esteve muito pequena. Agora que apareceu bastante, está legal. Ter sete na GP2 foi impressionante. E acho que a escola da F-3 é muito boa. Pelo menos quando é conduzida por um piloto que tem interesse, é demais. Porque aqui você pode treinar, você está na sua equipe, você fala a sua língua, você pode descobrir tudo que tem no carro, você tem a liberdade para saber o acerto do carro, você tem liberdade para tudo. E a partir do momento em que você vai lá para fora, é outra língua, você não tem total acesso a seu carro, você não mora no seu país, é diferente. Então é meio difícil para você aprender tudo que você pode extrair no Brasil, mas as pessoas que extraem aqui no Brasil são aquelas que têm interesse pelo carro. Se o piloto que vai lá só anda por andar, não vai adiantar em nada a escola.
GP: Foi difícil você fazer essa transição da F-3 para a GP2? Como é que foi ir lá, pegar o carro, que informações você tinha do carro?
LR: Primeiro eu fiz as corridas de 3000, que usam a carcaça da Internacional. Acho que isso foi ótimo para dar seqüência.
GP: Como se fosse um ponto intermédio.
LR: Exatamente. Porque, aqui do Brasil para lá, o que o pessoal fazia era 3000. Então eu fui fazer 3000. Por incrível que pareça, eu fui bem. E o contato com a GP2 foi impressionante pelo fato de eu nunca ter freado com o pé esquerdo e pelo fato de as marchas serem no volante.
GP: A potência do carro da F-3000 é semelhante à da GP2?
LR: Sim, por isso então não me assustei tanto com a potência. Mais com a freada, que é fibra de carbono no freio, e com as marchas, mas acho que piloto, onde tem que sentar a bunda, tem que acelerar. Não tem essa de "ah, não me acostumei com o carro", não existe isso.
GP: Como é que surgiu o convite da Racing Engineering? Porque, na verdade, o Jimenez foi direto porque ele corre na base da equipe na F-3 Espanhola.
LR: Na verdade, me ligaram e falaram assim: "Ah, você não quer fazer o teste de seleção para a F-3 Espanhola?" Aí eu falei: "Ah, não tenho interesse, não. Queria fazer na GP2". Aí disseram: "Ah, você quer fazer na GP2? Você não acha que, sair direto daí e ir para a GP2 não é muito um pulo?". E eu falei: "A F-3 aqui tem 40 hp a mais que a sua, aí". E falaram: "Ah, então vamos ver, tal". E aí a gente fez este teste da 3000, fui muito bem. E aí ligaram de volta: "Olha, eu vi você andar na 3000, então vamos fazer o teste da GP2..." Aí a gente fez agora, gostaram. Isso foi uma vantagem porque foi progressivo, a gente foi melhorando...
GP: É, você foi melhor que o Jimenez no primeiro dia...
LR: É, ele só treinou no primeiro, também. E acho que foi progressivo lá. O primeiro contato foi ótimo. Eu só espero que esse bom resultado não seja uma cobrança pro ano, né? Porque aí todo mundo vai falar: "Ah, no teste ele foi bem, agora ele se fodeu". Mas é isso, tudo tem seu tempo.
GP: Falando em cobrança, o que você já viu de mudança em relação ao que foi publicado sobre você? Como está essa relação com a imprensa – você, antes de vir para cá, estava dando entrevista para um jornal? E o público?
LR: O pessoal parabeniza, fala que sempre acreditou (risos). Aparece sempre, né? (risos). Mesmo aquele cara que criticava, quando o cara está lá em cima, fala: "Tá vendo? Eu te falei que você ia ganhar!", quando você está lá embaixo, fala: "Ih, tá uma merda!"
GP: Sempre tem o abutre, o que encontra defeitos...
LR: Exatamente. Mas para a imprensa, eu procuro cuidar ao máximo para não falar besteira, procuro sempre ser humilde nas entrevistas porque, realmente, ninguém tem três bolas, então todo mundo pode ser capaz de chegar à frente. Eu cuido da parte de texto com o Rafael (Durante, assessor) para informar o que teve, o que passou, o que aconteceu, e não o que eu achava que tinha de acontecer. Acho que isso leva vantagem sobre algumas coisas. E o público, cara, é muito atencioso, pessoal muito gente boa, sempre comenta, fala, pergunta.
GP: Você, claro, não tem a pressão que, por exemplo, tem um Massa, um Barrichello. Como funciona a questão da pressão sobre um piloto? Você acha que um dia vai saber lidar com isso, fama, idolatria?
LR: Todo piloto tem sua autopressão. Eu me critico, tenho uma autopressão, isso já é o que basta. Os outros chegam e falam: "seu trabalho é ganhar". Eu sei que meu trabalho é ganhar, eu sei que tenho essa autopressão, mas a gente tem que lidar com isso.
GP: E se você errar, também...
LR: Exatamente, foi erro meu, tenho que assumir. Não adianta falar que o carro está horrível sendo que você está errando também.
GP: Você sonha em se tornar um ídolo nacional? O Brasil vive muito disso.
LR: É muito carente.
GP: E você espera ser um?
LR: Eu acho que a gente nunca está preparado para ser uma grande estrela. Acho que 'não, não, não, vai ser ídolo', acho que o que eu quero mesmo é fazer o que eu gosto, eu quero pilotar, quero chegar na F-1 porque é um puta carro, porque eu quero me envolver com os engenheiros, com todo mundo, andando naquele círculo. Acho que fama, mídia, essas coisas, são conseqüências de um bom trabalho. Não é que eu estou pronto, que estaria pronto, ou que vou ser, ou que eu me considero. Eu só quero fazer meu trabalho, eu só quero fazer aquilo que eu gosto, passar a mensagem para o pessoal que você tem de fazer o que você gosta, muito bem feito, com dedicação e muito trabalho, que você chega lá. Agora... esse negócio de estar pronto para ser ídolo... acho que não é por aí, é fruto de um bom trabalho. É como um 'ah, estou pronto para ser um ótimo jornalista', claro que não. Primeiro você tem que fazer ótimos textos, você tem que saber redigir, saber criticar, saber dar sua própria opinião, tem que saber... depois seu trabalho é reconhecido. Não tem como você estar pronto para nada.
GP: E quem é seu ídolo?
LR: Eu costumo juntar. Pegar a genialidade do Piquet de ver onde é que tem os defeitos para você corrigir, onde é que tem a parte da mecânica para você propriamente fazer, entender de mecânica. Eu gosto do Piquet. Gosto do Ayrton pelo fato de ele ser super talentoso, de ele ter tido um nível de concentração máxima, de na preparação física ter sido uma dedicação imensa. Eu olho para o meu pai, também, que me ensinou muito, aprendi muito com ele. Acho que eu procuro um pouquinho de cada um, a genialidade do Schumacher de mexer no carro durante a corrida, de ter um nível de posição durante uma prova, de noção, de analisar a telemetria e saber tudinho que passa ali. Tento juntar um pouco de cada um e formar um piloto só.
GP: Aliás, que fazem seus pais?
LR: Meu pai é fazendeiro, ele mexe com fazenda. Agora ele arrendou, está alugada a fazenda e ele me acompanha nas corridas. Mas ele é empresário. E minha mãe é cartorária, ela trabalha na Justiça.
GP: Vai aposentar logo?
LR: Daqui a dois, três anos. Ela está querendo ir morar na Europa comigo, para ir cuidar de mim.
GP: E aí você vai para a Espanha quando, agora?
LR: Vou treinar dia 2 em Valência. Dia 2 de dezembro, pela Racing de novo.
GP: Você chegou a ter uma grande chance de ir para a ASM na F-3 Européia, certo?
LR: Sim, queria fazer, até, mas a GP2 parece bem mais interessante.
GP: Uma curiosidade, só: para que time você torce?
LR: Meu, não torço para nenhum, sabia? Odeio, cara. Eu vou almoçar todo dia num lugar que passa futebol no telão. Almoço assim (abaixa a cabeça e faz gestos de quem come rápido). Eu só torço para o Brasil na Copa, porque aí entro na farra...
GP: Você saiu da pequena Barreiras, morou em Brasília, agora está em São Paulo e a tendência é ir morar na Europa. Viveu em cidades bastante diferentes entre si. Como era sua vida na Bahia, veio de família humilde? E qual a dificuldade para se habituar com povos e culturas tão diferentes?
LR: Meu pai sempre teve uma situação financeira saudável e sempre a gente teve uma ótima vida, nunca pudemos reclamar de nada. Tive berço, fui muito bem educado pelos meus pais, agradeço muito a eles por isso. Eles me falaram: “Você quer isso? Então você vai ter de se dedicar, você vai ter de sacrificar um monte de coisas, você vai perder sua juventude, vai ter pressão”. E eu falei que estava a fim, que queria. E eu fui para Brasília, com 14 anos. Com 15, vim para São Paulo, fiz 17 este ano. Aprendi a morar sozinho com empregada, agora aqui sem. Foi tudo gradativo. Foi tudo pensado e programado.
GP: As empregadas eram boas?
LR: (gargalhadas) Eu sempre procurei ter empregadas feias para não ter nenhum tipo de problema.
GP: A carreira é curta, mas já teve um grande momento de arrependimento?
LR: Na última etapa que eu fiz de autocross, eu ganhei a primeira corrida e precisava vencer a segunda para ser campeão. Eu fiquei a prova inteira em segundo, atrás do cara. Estava um ponto na frente dele; se ele vencesse, ia ganhar o título. E eu tive várias oportunidades de ultrapassá-lo e não passei por total falta de experiência, nem o joguei para fora porque não tinha malícia. Quer dizer, eu perdi um ano inteiro de trabalho porque fui ‘cabaço’. É a maior frustração que eu tive, mas eu era muito novo, tinha 12, 13 anos. Hoje seria totalmente diferente.
GP: Você não hesitaria em colocar o piloto para fora?
LR: Não. Botou o capacete, pode ser até a mãe.
GP: Tipo Schumacher contra Villeneuve em 1997...
LR: (risos) Não, acho que não chega a esse ponto de ser tão crítico, mas teria de ter um jeito de passar, como tinha um jeito naquela época. Se eu tivesse efetuado a ultrapassagem, tudo bem; se tivesse saído os dois da prova, é uma fatalidade, não seria proposital. Se eu fizesse uma manobra como a que o Schumacher fez, eu faria como o Senna, falaria antes: cheguei no final da curva e vi o cara, os dois sairiam.
GP: Qual sua maior característica na pista? Você é um piloto agressivo ou conservador?
LR: Depende muito da hora. Tem momento em que você precisa ser agressivo, numa ultrapassagem, mas tem horas que você precisa ter calma, ser técnico para saber onde você vai passar, onde vai tentar. Mas no geral, sou agressivo.
GP: E sua melhor corrida?
LR Foi uma neste ano, em Curitiba. Eu larguei em segundo, rodei, caí para último. Voltei para a pista, de pneu slick, parei nos boxes, troquei para pneus na chuva, perdi uma volta e ainda ganhei a corrida.
GP: Então você é da escola dos bons pilotos de chuva...
LR: Particularmente tenho muito que aprender, ainda. Eu consigo levar o carro, mas eu queria ser um piloto totalmente rápido na chuva. Para isso, preciso de chuva, então toda hora que cai água, eu quero treinar. Não sou um piloto em chuva de se falar: ‘putz, esse é sensacional’, mas quero ser. E vou treinar para ser. E vou ser.